segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Que as músicas falem por mim #3

"Agora que a terra é redonda
e o centro do universo é outro lugar,
é hora de rever os planos;
o mundo não é plano, não para de girar.
Agora que o tempo é relativo,
não há tempo perdido, não há tempo a perder...

Num piscar de olhos, tudo se transforma.
Tá vendo? (até parece que) Já passou!
Mas, ao mesmo tempo,
fica o sentimento
de um mundo sempre igual -
igual ao que já era -;
de onde menos se espera,
dali mesmo é que não vem...

Agora que (quase) tudo está exposto,
a máscara e o rosto trocam de lugar.
Tô fora! Se esse é o caminho,
se a vida é um filme, eu não conheço diretor.
Tô fora! Sigo o meu caminho;
às vezes tô sozinho, (mas, pelo menos,) quase sempre tô em paz...

Num piscar de olhos, tudo se transforma.
Tá vendo? (até parece que) Já passou!
Mas, ao mesmo tempo,
esse mundo em movimento
parece não mudar;
é igual ao que já era:
de onde menos se espera,
dali mesmo é que não vem

Visão de raio-x...
O x dessa questão
é ver além da máscara...
Além do que é sabido, além do que é sentido,
ver além da máscara..."

("Além da máscara", de Pouca Vogal)

segunda-feira, 12 de julho de 2010

A menina que me apaixonou [ato primeiro]

Sim. Há uma menina que me apaixonou. Ela não me tinha qualquer nome quando a vi as primeiras vezes. Tudo o que me tinha eram feições bonitas. Claro, aquelas feições não eram, ainda, para mim. Mas eu preferia pensar que sim. Porque, no fundo, eu sabia que elas haviam de serem minhas um dia. Era um sorriso quase nunca contido, quase sempre farto, barulhento, de dentes brancos e bonitos. Um cabelo impecável – provavelmente o mais bonito que já vi na vida, muito embora eu não seja afeito a cabelos lisos. E tinha todo um jeito de falar, de olhar, de andar, que me encantava, e acho que acontecia o mesmo com todos. Imagino que desde sempre já fosse impossível estar-se imune àquele encanto sutil que ela, naturalmente, fazia emanar por onde passava.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

"Poema inacabado" ou "Até o fim"

De cenho franzido,
cabelo comprido,
abrindo sorriso,
num corpo franzino.

A face quieta,
a mente aberta,
atitude esperta,
abstrata e concreta.

Olhar indo ao longe,
qual fé de um monge,
que dELE não esconde
os vales e os montes.

Ela não é de vidro,
e nem porcelana -
se doi, ela chora;
se corta, ela sangra.

Voz limpando ouvidos,
olhos brilhando limpos,
e, quando séria, um mito,
num espaço, um olimpo.

Os gestos suaves,
as mãos pelos ares,
cessando os males,
com poucos olhares.

Dedos já laçados,
os braços cruzados,
são fés e abraços...
me deixam calado.

O sorriso inefável
desfaz-se amável.
Parece improvável...
É tudo mutável.

Ela anda bonito,
sacodindo verdades,
acenando sorrisos,
calejando maldades.

Vai passando por mim,
fechando a porta da vida,
me sorri de soslaio.
É o fim. A despedida!

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Que as músicas falem por mim #2

"Amanhã, talvez,
esse vendaval faça algum sentido.
Dá pra se dizer
qualquer coisa sobre todo mundo.

Por hoje é só.
Vou deixar passar a ventania.
Talvez, amanhã,
vento, vela e velocidade.

Mar azul,
céu azul sem nuvens,
logo ali... depois da curva...
Ali, logo ali, ali... depois da curva...

Amanhã, talvez,
esse temporal saia do caminho.
Dá pra escrever;
o papel aceita toda qualquer coisa.

Por hoje é só.
Vou deixar passar a tempestade.
Talvez, amanhã,
água pura e toda verdade.

Mar azul,
céu azul sem nuvens,
logo ali... depois da curva...
Ali, logo ali, ali... depois da curva...

Ali, logo ali, ali... depois da curva...
Ali, logo ali...
Eu vi, eu vim, venci a curva."

("Depois da curva", de Pouca Vogal)

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Do feminino e duas de suas facetas na obra "O Guarani"


Na obra O Guarani, são duas as personagens usadas por José de Alencar para representar o feminino: a loura Cecília e a morena Isabel. É por meio delas que Alencar, além de expor o universo feminino, faz uso de um signo que não apenas expressa diferenciação racial e social, mas, sobretudo, oposição e complemento na formação do mundo feminino, qual seja, a distinção entre loura e morena.

De um lado, Cecília, mulher doce e bonita, e que traz no semblante a promessa de se tornar boa esposa e mãe. Do outro, Isabel, de personalidade marcante e compleição austera, porém melancólica. Entra as duas, Álvaro, confuso, perdido e subjugado aos temores e incertezas provindos de sentimentos devotados a duas faces do mesmo mundo: o feminino.

Alencar, ao diferenciar as duas personagens em loura e morena, faz uso de um antagonismo que reforça e destaca a condição de rivalidade entre Cecília e Isabel, já que ambas disputam o amor de Álvaro. Esse artifício, ainda, se revela como característica e compositor do feminino na trama romanesca.

sábado, 19 de junho de 2010

"Se cuida, meu filho"

Raimundo Nonato do Carmo.Sobre o seu nascimento, só sei o quando e o onde: 20 de junho de 1949, em Aiuaba, no Ceará. Lá se vão 61 anos e eu pouco ou nada sei sobre o que aconteceu nas primeiras décadas de sua vida. Não sei em que colégios estudou, quantas namoradas teve, nem qual foi seu primeiro emprego. Na verdade, eu praticamente o conheci apenas no dia de sua morte: 7 de setembro de 1990. Eu era só uma criança, a dois dias de completar oito anos. Nessa época, o meu contato com Seu Raimundo se resumia a alguns encontros casuais nos fins de semana, onde quase sempre o via de olhos vidrados, roupas amassadas e andar cambaleante. Diziam que era por conta da cachaça, mas eu não entendia bem o que isso significava. Naquela idade, tudo o que eu entendia era que algumas pessoas eram boas e outras ruins.

Eu gostava muito de Seu Raimundo, mas havia algo nele que não era bom. Talvez fosse essa tal da cachaça. Mas, como eu ia dizendo, naquele final de inverno de 90, deu-se a morte desse Seu Raimundo de quem falo. Eu me lembro de estar brincando num gramado, em frente à minha casa, com dois amigos. Sobre os fatos da morte em si, não lembro muito bem. Tenho apenas alguns flashs de memória. O fato é que naquele dia, Seu Raimundo se foi.

Bom, como disse, eu o via apenas nos finais de semana, e isso era pouco. A vida seguiu aparentemente tranquila depois da morte de Seu Raimundo. Acho que nem me dava mais conta da ausência dele, até que um dia, semanas depois, tomei um grande susto. Eu vi Seu Raimundo de novo. Acho que minha cabeça de criança não soube assimilar aquilo direito. Eu não sabia se era um fantasma, uma alucinação minha. Tempos depois é que fui descobrir que DEUS, às vezes, prega as suas peças. Aos bons, ELE sempre dá uma segunda chance. E foi então que eu tive certeza de que Seu Raimundo era bom; porque DEUS fez renascer aquele homem que eu só via nos finais de semana. E ele, agora, já não andava mais cambaleante pelas ruas. Era um outro Seu Raimundo.

Eu continuava a vê-lo pouco, mas, desde que ele renasceu, começamos a nos conhecer melhor e a compartilhar mais a vida um com o outro. As poucas lembranças que eu talvez tivesse daquele antigo Seu Raimundo foram se dissipando aos poucos, dando lugar às novas descobertas que aconteceram a partir dali.

Como quem presencia certos milagres, passamos, minha família e eu, a ver Seu Raimundo sorrindo mais, trabalhando mais, convivendo mais em harmonia com os filhos e com a esposa. Lembro de sempre prestar atenção a cada vez que Seu Raimundo dizia algo. Era muito raro vê-lo falando. Era mais comum vê-lo calado, sempre ouvindo mais que falando. Parecia se justificar aí o quanto ele sempre foi mais sensato que os demais à sua volta.

Lembro de uma vez em que Seu Raimundo brigava com o filho mais velho por alguma traquinagem que o menino havia feito. A certa altura, Seu Raimundo parecia não sentir raiva, mas muita tristeza e decepção com o filho. Seu Raimundo, então, embargou a voz enquanto ainda tentava mostrar ao filho o jeito certo de tentar ser um homem de verdade. Foi a primeira vez que eu chorei por causa de Seu Raimundo. Eu não era o filho que estava apanhando, e nem tinha nada a ver com aquilo. Mas, foi naquele dia que eu decidi tentar ser um homem tão bom quanto Seu Raimundo. Foi ali que ele começou a ser o exemplo que eu tento seguir até hoje.

A isso seguiram-se uma série de situações em que tive o privilégio de poder contar como Seu Raimundo, fosse me dando um conselho, conversando, mostrando como se faz, ou simplesmente calando. Como uma vez em que perdi uma amiga e, depois que minha mãe e dois amigos me abraçaram e não conseguiram acabar com meu choro, abracei Seu Raimundo e ele apenas passou a mão nas minhas costas. Nessa hora, foi como se alguém tivesse me dado um bálsamo que aliviasse tudo. Mas, era simplesmente Seu Raimundo sendo quem ele passou a ser depois que ressuscitou.

Enfim, não dá para pensar nesse novo Seu Raimundo, hoje em dia, e não associá-lo às revistas de faroeste que costumava ler em tempos bem antigos, aos jogos de paciência, sozinho, na mesa da sala e, mais tarde, no computador. Impossível não pensar em Seu Raimundo, hoje, ligando rádio e televisão ao mesmo tempo e não prestando atenção a nenhum dos dois porque se dedica aos joguinhos eletrônicos no celular. Hoje, parece haver vários Seus Raimundos num só. O que passa a semana toda fora de casa, trabalhando para sustentar a família, o que passa o final de semana levantando da cama para ir beliscar alguma coisa na cozinha, o que ronca antes dos outros pegarem no sono, o que se preocupa com todos os filhos, que tenta resolver os problemas, que conversa mais que antes, ri mais que antes, é mais gente que antes.

E, em especial, a imagem mais forte que tenho de Seu Raimundo é a dele me abraçando no dia em que saí de casa, e, chorando, dizendo: “Se cuida, meu filho”. Eu tô tentando, PAPAI. Sempre que preciso dar um passo importante na vida, penso no quanto o senhor organizou seus passos em prol das nossas vidas. Eu tô tentando me cuidar como o senhor cuida de mim. E tentando ser um homem tão bom e honrado quanto o senhor é. Se eu conseguir metade disso, terá valido a pena.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Os dias


Eu deixei ficar pra trás
o teu retrato já rasgado
que, de tão amarelado,
me deixava com saudade.

E guardei as tuas cartas
na gaveta do armário,
mas a chave eu perdi
num lugar que já não vou.

Fiz bagunça no meu quarto
só pra reorganizar

e encontrar coisas perdidas
que eu nem lembrava mais.


Sorri risos da infância
que não eram mais perfeitos
porque eram por amigos
que ficaram pela estrada
e que não me ligam mais,
não me olham, nem procuram,
e, se olham, já não veem,
porque o tempo rasga tudo,
devasta a vida e deixa marcas.
E o pecado dessas coisas
é que a gente ainda vive
como se não vivesse mais...

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

3ª da série "diálogos curtos":

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Pouco mais de uma hora depois do HEXA, ela sentenciou:
- Tu não tá nem com cara de campeão.
E eu:
- Nem tu.
E ela, já que tínhamos que terminar o assunto, "precisou" dizer:
- Eu tô ainda sem acreditar.
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É. Parece, mesmo, que campeão não é só uma condição, é um estado de espírito. E, em se tratando de estado de espírito, não tenho mesmo como estar com cara de campeão. Parece absurdo, eu sei. Mas, o fato é que há algo errado. Muito errado! E eu ainda não consegui corrigir...
Mesmo assim, não tenho como não estar grato ao meu MENGÃO por essa alegria chamada HEXA. Eu posso não ser a mais genuína representação disto, mas a NAÇÃO está feliz...

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O que é tudo isso?


Por que é que tua boca é assim?

Ela só fala, ela não cala,
e nem me beija, ela só deixa
vontade em mim...

E o que ela quer me dizer?
Se eu não a ouço, se só a olho,
e nem descanso, eu não me canso
de só querer...

E pros teus olhos pra que olhar?
Porque eles brilham, hipnotizam,
me deixam dado, desnorteado,
a divagar...

E o que eles querem me dizer?
Eu não entendo, mas não lamento,
eu tremo um pouco e viro o rosto
pra não te ver...

As suas mãos - o que são isso?
São tantos gestos, mas meio incertos,
até sem jeito e imperfeitos,
mas tão bonitos...

O que elas fazem ao me tocar?
Parece mágica, ou luz fantástica,
algo divino, me faz menino,
a se alegrar...

Então, a ti dizer o que?
Que tua boca é tão bonita?
Ou os teus olhos, pedras bem ricas?
Ou tuas mãos um grã poder?

Já não escrevo o que mais sinto.
Sobre uma dor ou um amor,
sobre sofrer ou não querer.
Se eu te esqueço, então eu minto.

Eu fico aqui sem mais saber
da tua boca ou teu olhar,
e tuas mãos - o que será?
Não sei dizer quem é você...