A vida vai passando,
feito passarinho,
devagarzinho,
de mansinho.
De repente ela acorda,
acelera ligeiro,
feito carteiro
sem dinheiro.
E, perigosa, ela te mostra
que tudo é muito urgente:
a alegria e os dias da gente,
a dor e o amor que a gente sente.
É complicado entender tudo.
Mas, só para saber, então, direito,
o que a vida, nessa urgência, te tem feito,
vou dizer tudo, agora, do meu jeito.
A vida tá te deixando bonita.
E eu cá do meu lado admirando.
A vida tá te fazendo madura.
E eu cá do meu lado aprendendo.
A vida tá te ensinando amores.
E eu cá do meu lado amando.
A vida tá te fechando os cortes.
E eu cá do meu lado sarando.
A vida tá te pondo os seus sóis.
E eu cá do meu lado sublimando.
A vida tá te pondo distante.
E eu cá do meu lado aproximando.
A vida tá te dizendo "bons dias".
E eu cá do meu lado calando.
A vida tá te escrevendo poesias.
E eu cá do meu lado assinando.
quinta-feira, 1 de março de 2012
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
Negativo, Positivo.
Chegaram a me dizer que você me faz mal.
Mas, eu não acho. Acredito que o problema
está na dimensão de cada novo começo...
...a partir daqui.
Me disseram que cada novo passo
em direção ao desconhecido é em falso.
Cantei, então, para responder que,
pelo menos por enquanto, não vai ser o
seu nem o meu passo incerto que vai desandar as coisas.
Cá com meus botões, fiz questão de guardar o que é
belo e o que ainda me faz bem. Mas, nos falta
ver o que é que, de tudo isso, vai nos tornar
melhores. Até o fim. Eu sem você. Você sem mim.
(Escrito só para quem, de fato, quer entender)
Mas, eu não acho. Acredito que o problema
está na dimensão de cada novo começo...
...a partir daqui.
Me disseram que cada novo passo
em direção ao desconhecido é em falso.
Cantei, então, para responder que,
pelo menos por enquanto, não vai ser o
seu nem o meu passo incerto que vai desandar as coisas.
Cá com meus botões, fiz questão de guardar o que é
belo e o que ainda me faz bem. Mas, nos falta
ver o que é que, de tudo isso, vai nos tornar
melhores. Até o fim. Eu sem você. Você sem mim.
(Escrito só para quem, de fato, quer entender)
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
Menina bonita que só...
Do outro lado da rua,
sempre passa uma menina bonita,
andando ligeiro, escapando da chuva,
uma menina bonita que só.
Bonita que só a chuva,
que ainda era fraquinha.
Bonita que só a rua,
que só era bonita
na hora em que ela passava.
Menina bonita que só ela,
que ia só do outro lado da rua.
Que ia sem olhar pro lado ou para trás,
que ia sem olhar para mim.
O lado que eu estava da rua
parecia a plateia.
O lado da menina bonita que só
era o palco ou a passarela.
E a menina bonita que só
era ela, era ela...
Menina bonita que só...
Bonita que só a chuva, a rua, a lua.
Bonita que só peixe sem anzol,
que só vermelho ao sol.
Bonita que só contorno preto em olho diferente.
Bonita que só sorriso farto, cheio de dente.
Menina bonita que ficou andando do meu lado.
A gente lado a lado e a rua lá do outro lado.
Menina bonita que só a gente abraçado,
bonita que só um beijo estalado.
Menina bonita que agora anda na rua do outro lado.
Bonita que só a saudade que eu sinto da beleza que só ela tem.
Bonita que só a verdade que eu minto com a certeza que ela não vem.
Menina bonita que anda distante, sem chuva, sem lua, sem sol, sem semblante.
Menina bonita que só, que anda sozinha e me deixa só.
Menina bonita...
...que só pôr-de-sol,
que só arco-íris,
que só gargalhada,
quiçá a saudade
não faça morada,
no peito, na casa,
deste que lhe escreve.
Menina bonita que só...
Que sorte a sua...
Que sorte a minha...
Bonita que só...
sempre passa uma menina bonita,
andando ligeiro, escapando da chuva,
uma menina bonita que só.
Bonita que só a chuva,
que ainda era fraquinha.
Bonita que só a rua,
que só era bonita
na hora em que ela passava.
Menina bonita que só ela,
que ia só do outro lado da rua.
Que ia sem olhar pro lado ou para trás,
que ia sem olhar para mim.
O lado que eu estava da rua
parecia a plateia.
O lado da menina bonita que só
era o palco ou a passarela.
E a menina bonita que só
era ela, era ela...
Menina bonita que só...
Bonita que só a chuva, a rua, a lua.
Bonita que só peixe sem anzol,
que só vermelho ao sol.
Bonita que só contorno preto em olho diferente.
Bonita que só sorriso farto, cheio de dente.
Menina bonita que ficou andando do meu lado.
A gente lado a lado e a rua lá do outro lado.
Menina bonita que só a gente abraçado,
bonita que só um beijo estalado.
Menina bonita que agora anda na rua do outro lado.
Bonita que só a saudade que eu sinto da beleza que só ela tem.
Bonita que só a verdade que eu minto com a certeza que ela não vem.
Menina bonita que anda distante, sem chuva, sem lua, sem sol, sem semblante.
Menina bonita que só, que anda sozinha e me deixa só.
Menina bonita...
...que só pôr-de-sol,
que só arco-íris,
que só gargalhada,
quiçá a saudade
não faça morada,
no peito, na casa,
deste que lhe escreve.
Menina bonita que só...
Que sorte a sua...
Que sorte a minha...
Bonita que só...
segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
...teu primeiro namorado!
Acho que eu queria ter sido o teu primeiro namorado. Nem sei se por inveja ou por exclusividade. O fato é que naquela idade, ainda nem sabia de ti. Ainda não tinha passado por uma rua qualquer, e sido sugado pela tua passagem, na calçada do outro lado, completamente alheia a mim. Mas queria que isso tivesse acontecido alguns anos antes. E que eu tivesse me aproximado, que você tivesse deixado e que tivesse acontecido.
Queria ter sido o primeiro só para que eu fosse o desbravador de certos sorrisos teus, que só um namorado recebeu. De certos olhares que a vida prometeu. Queria ter sido o primeiro para receber a pureza mais simples ainda, mais completa ainda. E não é que eu ache que teria sido melhor do que pode vir a ser um dia. É porque assim, de forma simples, eu queria.
Queria ter dado o primeiro beijo e ter sido a primeira saudade. Queria segurar a mão e caminhar pela cidade. Queria opinar sobre as roupas e aprender a conviver. Queria cometer erros, discutir, me arrepender. Escolher a armação dos óculos e dividir os amigos. Namorar até deixar nosso amor bem antigo. Mas, ter sido o primeiro, por conveniência, já não digo.
E talvez a sensação de ser primeiro nem seja a que eu mais queria. Melhor seria ter sido o único, coisa que nem vai ser, nem seria. E, de verdade, o que explica essa minha sensação de querer ter sido o primeiro seja o fato de que, se eu tivesse chegado antes, ao menos, talvez, eu seria. Mas, ter passado naquela rua, naquela hora, naquele dia, já tão tarde, tão errado, tenha sido o meu atraso, mesmo em nossa simpatia. E agora, nem primeiro, nem, quem sabe(?), um dia...
sábado, 31 de dezembro de 2011
terça-feira, 22 de novembro de 2011
Que as músicas falem por mim #20
"Depois de sonhar tantos anos,
de fazer tantos planos
de um futuro pra nós.
Depois de tantos desenganos,
nós nos abandonamos como tantos casais.
Quero que você seja feliz.
Hei de ser feliz também.
Depois de varar madrugada,
esperando por nada,
de arrastar-me no chão
em vão. Tu viraste-me costas,
não me deu as respostas
que eu preciso escutar.
Quero que você seja melhor.
Hei de ser melhor também.
Nós dois já tivemos momentos,
mas passou nosso tempo,
não podemos negar. Foi bom!
Nós fizemos histórias
pra ficar na memória
e nos acompanhar.
Quero que você viva sem mim.
Eu vou conseguir também.
Depois de aceitarmos os fatos,
vou trocar seus retratos
pelos de um outro alguém
Meu bem, vamos ter liberdade
para amar à vontade
sem trair mais ninguém.
Quero que você seja feliz.
Hei de ser feliz também
depois..."
("Depois", de Marisa Monte)
de fazer tantos planos
de um futuro pra nós.
Depois de tantos desenganos,
nós nos abandonamos como tantos casais.
Quero que você seja feliz.
Hei de ser feliz também.
Depois de varar madrugada,
esperando por nada,
de arrastar-me no chão
em vão. Tu viraste-me costas,
não me deu as respostas
que eu preciso escutar.
Quero que você seja melhor.
Hei de ser melhor também.
Nós dois já tivemos momentos,
mas passou nosso tempo,
não podemos negar. Foi bom!
Nós fizemos histórias
pra ficar na memória
e nos acompanhar.
Quero que você viva sem mim.
Eu vou conseguir também.
Depois de aceitarmos os fatos,
vou trocar seus retratos
pelos de um outro alguém
Meu bem, vamos ter liberdade
para amar à vontade
sem trair mais ninguém.
Quero que você seja feliz.
Hei de ser feliz também
depois..."
("Depois", de Marisa Monte)
sábado, 29 de outubro de 2011
O dia em que eu (não) casei...
Eu teria acordado muito ansioso neste 29 de outubro de 2011. Teria, se tivesse dormido. Mas, como eu dormiria, sendo este sábado um dos dias mais importantes da minha vida? Não seria possível. A tônica para o início deste dia seria tê-lo grudado à sexta-feira, que já se foi, sem sequer piscar os olhos. Não exatamente por falta de sono, mas por ansiedade.
Mas, a ansiedade não seria minha única companhia no início e no decorrer deste sábado. Eu estaria nervoso. E eu veria as primeiras horas do dia surgirem - ainda em meio à escuridão da madrugada que tranforma sextas em sábados - e me perguntaria com que velocidade elas passariam. E quanto tempo eu ainda teria que esperar até as 10 horas da noite. Sim, porque, se este 29 de outubro seria um dos dias mais importantes entre todos, 10 horas da noite seria o momento. Assim, simples. Só com um artigo definido se antepondo ao substantivo. Porque tudo haveria de ser simples.
Então, é isso. Eu haveria de ver o dia 29 de outubro de 2011 chegar, ansioso e nervoso para que o tempo me levasse logo até as 10 da noite. Mas, até lá, eu ainda precisaria ordenar muitas coisas e conferir tantas outras. Antes que o sol nascesse, por exemplo, eu ainda terminaria de escrever o poema - desta vez, sim, um poema - que seria o texto mais profundo já escrito por mim. Não teria mais que uma lauda, escrita de próprio punho, caneta preta, assinada ao final com o eterno e irrepreensível "ED...".
Provavelmente, eu o terminaria já com os primeiros raios de sol entrando pela janela e me apontando rumos a seguir ainda antes do momento. E, com certeza, até que eu dobrasse cirurgicamente o papel e o guardasse no melhor envelope que havia encontrado semanas antes, eu já teria rememorado várias coisas. Uma delas, 12 anos antes, também num 29 de outubro, quando assobiei "não se admire se um dia um beija-flor invadir a porta da sua casa, lhe der um beijo e partir...".
Eu já teria lembrado, também, dos fatos que sucederam esses assobios. Um beijo, depois mais outro. E uma sequência de história que chegaria a este 29 de outubro de 2011. Às 10 horas da noite. Eu lembraria da lapiseira emprestada e esquecida intencionalmente para gerar novos encontros. Das cartinhas escritas e entregues com todo o zelo do mundo. Lembraria de um "Eu também", que, sozinho, era o mais romântico "Eu te amo!" que podia haver neste mundo. Lembraria de um show de Kid Abelha em um 4 de dezembro antigo. De uma calça azul que eu adorava no corpo dela. De como eu passei a gostar do calo que ela tinha no dedo, de como ela sempre me pedia para cortar o cabelo, de como eu queria que ela não mexesse no dela.
Enfim. Uma sucessão de lembranças me viria à mente. Aquela faixa que estendi para ela na escola. As camisas que ela personalizou para mim. A camisa que eu personalizei com o nome dela e o número 29 às costas. E, de forma especial, a mania dela de me chamar monossilabicamente de Du, esperar minha resposta, me chamar de novo para mais uma resposta, repetir isso mais uma vez, para, no final, dizer: te amo! E ouvir o meu "eu também!".
Mas, aí já seria praticamente meio dia. E eu precisaria conversar com o maestro. Ele já teria, provavelmente, me garantindo mais de uma centena de vezes que a música "O vento" estava ensaiadíssima e que os músicos já sabiam de cor o momento de aparecer entre os convidados, um a um, para surpreendê-la. Ah, e o principal: ela não desconfiava de nada.
Eu também teria que passar por minha última e definitiva aula de dança. Sim, porque eu quereria surpreendê-la também com uma dança, já que sempre a privei de dançar comigo por pura incompatibilidade entre mim, minhas pernas e qualquer ritmo musical. Acho que ela iria gostar muito de se sentir conduzida por mim numa dança, por isso eu teria preparado isso para ela.
E aí, depois de (re)conferido esses detalhes, eu haveria de ir me vestir, bem a rigor, bem polidamente, exatamente da maneira como eu não gostava muito, mas como ela preferia. E, de certa forma, ao longo dos anos até aqui, foi ela que me ensinou a "detestar" menos esse jeito de me vestir. Talvez por ela eu tivesse reconstruído minha forma de pensar a esse respeito.
Bom, mas aí, como seria de se esperar, o dia passaria voando, mesmo, e eu me perceberia já às portas das 10 horas da noite. Antes de sair de casa, ainda tomaria as bênçãos dos meus pais, compartilharia uns abraços com meus irmãos e sairia com meu melhor amigo, que ainda me zoaria algumas besteiras aos ouvidos, como quem diz, em outras palavras: "Parabéns, cara! Você conseguiu!".
Às 9 e meia da noite, lá estaria eu, em frente à igreja, já completamente tomada de rostos conhecidos, sorrisos fartos, amizades longas. Eu entraria pela entrada principal como quem não acredita que, enfim, havia chegado a hora. Iria caminhando, sozinho, entre as pessoas, e fingiria que ainda dava uma última conferida nos detalhes, mas, na verdade, não conseguiria mais assimilar muita coisa. Meu coração só conseguiria pulsar regressivamente, como quem me prepara e se prepara para a hora, que seria dali a pouco.
Até que, pontualmente às 10 horas, ela haveria de aparecer na entrada. A pontualidade teria sido algo combinado entre a gente para que a eternidade que eu sei que existiria até ela chegar não parecesse tão mais longa do que, de fato, seria. O pai dela estaria meio engasgado, meio emocionado, meio vermelho demais pela sensação de estar perdendo a filha. Mas, ele confessaria, quando me estendesse o braço dela, que confiava em mim. Quem diria?
Ela estaria linda! Deslumbrante seria a palavra certa. Tão linda como se estivesse usando uma camiseta branca e a calça azul de que eu tanto gostava. Apesar do vestido longo e branco, do véu, dos enfeites no cabelo - adereços aos quais não sou muito afeito -, ela estaria linda! Deslumbrante de verdade.
E eu ousaria desvirtuar meus olhos dos dela só para constatar que meus pais, os dela, os amigos que construímos juntos e os que compartilhamos, todo mundo, ali, seria testemunha ocular do que estaria acontecendo. E nós haveríamos de ouvir algumas palavras religiosas antes de proferirmos um ao outro o "sim" mais sonoro e definitivo que nossos ouvidos poderiam captar. Aí, eu a olharia profundamente, mais uma vez, como se fosse a última, e tocaria seus lábios tão detida e intensamente, que seria quase como se voltássemos ao mesmo local de 12 anos antes, na escola, quando assobiei uma canção qualquer, quase perdida no tempo, e nossos lábios se uniram pela primeira vez.
Em seguida, viriam "O vento" a violinos e sax, as homenagens, os gritos, a algazarra, a festa, a alegria, a sensação, quase, de dever cumprido.
Haveria de ter sido neste 29 de outubro de 2011, porque queríamos um sábado e, quando planejamos, a partir de então, este seria o primeiro 29 de outubro num sábado. E, coincidentemente, eu estaria com 29 anos.
Haveria de ter sido o momento áureo das nossas histórias. Haveria de ter feito nossos corações quase saírem pela boca, assim, impulsivamente, exatamente como eu fiz ao pular do piso superior da escola quando um amigo me disse que ela estava no térreo, aparentemente chorando. Haveria de ter sido... mas não foi! Porque a vida prega peças. Porque a vida é quem dita as regras.
Mas, a ansiedade não seria minha única companhia no início e no decorrer deste sábado. Eu estaria nervoso. E eu veria as primeiras horas do dia surgirem - ainda em meio à escuridão da madrugada que tranforma sextas em sábados - e me perguntaria com que velocidade elas passariam. E quanto tempo eu ainda teria que esperar até as 10 horas da noite. Sim, porque, se este 29 de outubro seria um dos dias mais importantes entre todos, 10 horas da noite seria o momento. Assim, simples. Só com um artigo definido se antepondo ao substantivo. Porque tudo haveria de ser simples.
Então, é isso. Eu haveria de ver o dia 29 de outubro de 2011 chegar, ansioso e nervoso para que o tempo me levasse logo até as 10 da noite. Mas, até lá, eu ainda precisaria ordenar muitas coisas e conferir tantas outras. Antes que o sol nascesse, por exemplo, eu ainda terminaria de escrever o poema - desta vez, sim, um poema - que seria o texto mais profundo já escrito por mim. Não teria mais que uma lauda, escrita de próprio punho, caneta preta, assinada ao final com o eterno e irrepreensível "ED...".
Provavelmente, eu o terminaria já com os primeiros raios de sol entrando pela janela e me apontando rumos a seguir ainda antes do momento. E, com certeza, até que eu dobrasse cirurgicamente o papel e o guardasse no melhor envelope que havia encontrado semanas antes, eu já teria rememorado várias coisas. Uma delas, 12 anos antes, também num 29 de outubro, quando assobiei "não se admire se um dia um beija-flor invadir a porta da sua casa, lhe der um beijo e partir...".
Eu já teria lembrado, também, dos fatos que sucederam esses assobios. Um beijo, depois mais outro. E uma sequência de história que chegaria a este 29 de outubro de 2011. Às 10 horas da noite. Eu lembraria da lapiseira emprestada e esquecida intencionalmente para gerar novos encontros. Das cartinhas escritas e entregues com todo o zelo do mundo. Lembraria de um "Eu também", que, sozinho, era o mais romântico "Eu te amo!" que podia haver neste mundo. Lembraria de um show de Kid Abelha em um 4 de dezembro antigo. De uma calça azul que eu adorava no corpo dela. De como eu passei a gostar do calo que ela tinha no dedo, de como ela sempre me pedia para cortar o cabelo, de como eu queria que ela não mexesse no dela.
Enfim. Uma sucessão de lembranças me viria à mente. Aquela faixa que estendi para ela na escola. As camisas que ela personalizou para mim. A camisa que eu personalizei com o nome dela e o número 29 às costas. E, de forma especial, a mania dela de me chamar monossilabicamente de Du, esperar minha resposta, me chamar de novo para mais uma resposta, repetir isso mais uma vez, para, no final, dizer: te amo! E ouvir o meu "eu também!".
Mas, aí já seria praticamente meio dia. E eu precisaria conversar com o maestro. Ele já teria, provavelmente, me garantindo mais de uma centena de vezes que a música "O vento" estava ensaiadíssima e que os músicos já sabiam de cor o momento de aparecer entre os convidados, um a um, para surpreendê-la. Ah, e o principal: ela não desconfiava de nada.
Eu também teria que passar por minha última e definitiva aula de dança. Sim, porque eu quereria surpreendê-la também com uma dança, já que sempre a privei de dançar comigo por pura incompatibilidade entre mim, minhas pernas e qualquer ritmo musical. Acho que ela iria gostar muito de se sentir conduzida por mim numa dança, por isso eu teria preparado isso para ela.
E aí, depois de (re)conferido esses detalhes, eu haveria de ir me vestir, bem a rigor, bem polidamente, exatamente da maneira como eu não gostava muito, mas como ela preferia. E, de certa forma, ao longo dos anos até aqui, foi ela que me ensinou a "detestar" menos esse jeito de me vestir. Talvez por ela eu tivesse reconstruído minha forma de pensar a esse respeito.
Bom, mas aí, como seria de se esperar, o dia passaria voando, mesmo, e eu me perceberia já às portas das 10 horas da noite. Antes de sair de casa, ainda tomaria as bênçãos dos meus pais, compartilharia uns abraços com meus irmãos e sairia com meu melhor amigo, que ainda me zoaria algumas besteiras aos ouvidos, como quem diz, em outras palavras: "Parabéns, cara! Você conseguiu!".
Às 9 e meia da noite, lá estaria eu, em frente à igreja, já completamente tomada de rostos conhecidos, sorrisos fartos, amizades longas. Eu entraria pela entrada principal como quem não acredita que, enfim, havia chegado a hora. Iria caminhando, sozinho, entre as pessoas, e fingiria que ainda dava uma última conferida nos detalhes, mas, na verdade, não conseguiria mais assimilar muita coisa. Meu coração só conseguiria pulsar regressivamente, como quem me prepara e se prepara para a hora, que seria dali a pouco.
Até que, pontualmente às 10 horas, ela haveria de aparecer na entrada. A pontualidade teria sido algo combinado entre a gente para que a eternidade que eu sei que existiria até ela chegar não parecesse tão mais longa do que, de fato, seria. O pai dela estaria meio engasgado, meio emocionado, meio vermelho demais pela sensação de estar perdendo a filha. Mas, ele confessaria, quando me estendesse o braço dela, que confiava em mim. Quem diria?
Ela estaria linda! Deslumbrante seria a palavra certa. Tão linda como se estivesse usando uma camiseta branca e a calça azul de que eu tanto gostava. Apesar do vestido longo e branco, do véu, dos enfeites no cabelo - adereços aos quais não sou muito afeito -, ela estaria linda! Deslumbrante de verdade.
E eu ousaria desvirtuar meus olhos dos dela só para constatar que meus pais, os dela, os amigos que construímos juntos e os que compartilhamos, todo mundo, ali, seria testemunha ocular do que estaria acontecendo. E nós haveríamos de ouvir algumas palavras religiosas antes de proferirmos um ao outro o "sim" mais sonoro e definitivo que nossos ouvidos poderiam captar. Aí, eu a olharia profundamente, mais uma vez, como se fosse a última, e tocaria seus lábios tão detida e intensamente, que seria quase como se voltássemos ao mesmo local de 12 anos antes, na escola, quando assobiei uma canção qualquer, quase perdida no tempo, e nossos lábios se uniram pela primeira vez.
Em seguida, viriam "O vento" a violinos e sax, as homenagens, os gritos, a algazarra, a festa, a alegria, a sensação, quase, de dever cumprido.
Haveria de ter sido neste 29 de outubro de 2011, porque queríamos um sábado e, quando planejamos, a partir de então, este seria o primeiro 29 de outubro num sábado. E, coincidentemente, eu estaria com 29 anos.
Haveria de ter sido o momento áureo das nossas histórias. Haveria de ter feito nossos corações quase saírem pela boca, assim, impulsivamente, exatamente como eu fiz ao pular do piso superior da escola quando um amigo me disse que ela estava no térreo, aparentemente chorando. Haveria de ter sido... mas não foi! Porque a vida prega peças. Porque a vida é quem dita as regras.
sábado, 22 de outubro de 2011
Penso, logo... #5
Ah, coração, por que você não aproveita uma taquicardia qualquer dessas e esquece?! Esquece, porque, de repente, esquecer pode ser sua única oportunidade de permanecer pulsando.
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
Hoje eu Inventei a Vida
Não era só um pedaço de papel, nem apenas o resultado de um exame. Era o primeiro dos últimos dias da minha vida. Ao redor dos trinta, bem na previsão, no diagnóstico. E eu precisei tomar algumas decisões.
Optei por não ser mais kamikasi e desisti do "sonho" de me transformar em homem-bomba; tudo já havia sido detonado, explodido e, paradoxalmente, começava agora a ser implodido.
Eu decidi não xingar o juiz só por ter recebido uma entrada dura ou o motoqueiro do lado só por ele ter-me trancado contra o meio-feio numa avenida movimentada. Aliás, por falar em moto, não piloto mais a minha Yáskara com os olhos fechados e os braços abertos - esse é um risco que prefiro não correr mais.
Eu também parei de tentar me equilibrar em uma perna só sobre o parapeito da varanda do meu apartamento, no quarto andar - pode ser que eu caia e, então, encurtar o já curto inevitável seria idiota; agora, sim, seria.
Resolvi que atravessar a rua a pé agora só faz sentido se eu olhar pros dois lados antes, se não estiver ouvindo barulho de veículos por perto e sempre na perpendicular à calçada - são os cuidados que vou ter daqui pra frente que vão definir a minha qualidade de vida.
Ainda penso em saltar de paraquedas, mas, mais do que nunca, já vou saltar segurando a cordinha e não resta qualquer dúvidas de que vou puxá-la no momento indicado pelo instrutor e não segundos depois, como eu planejva antes.
As torções nos joelhos já não têm a mesma importância de antes, mas o cérebro se concentra mais em evitá-las: pisar mais com as pontas dos pés e menos com os calcanhares, tirar o peso do corpo na hora do giro, correr como quem flutua.
Bebo mais água, descanso mais, respiro mais profundamente, ando mais devagar, corro menos, falo mais pausadamente, trabalho menos em grupo...
E detesto coisas impressas em papeis pequenos. Porque não era só um pedaço de papel. Mais parecia um bilhete de viagem...
Optei por não ser mais kamikasi e desisti do "sonho" de me transformar em homem-bomba; tudo já havia sido detonado, explodido e, paradoxalmente, começava agora a ser implodido.
Eu decidi não xingar o juiz só por ter recebido uma entrada dura ou o motoqueiro do lado só por ele ter-me trancado contra o meio-feio numa avenida movimentada. Aliás, por falar em moto, não piloto mais a minha Yáskara com os olhos fechados e os braços abertos - esse é um risco que prefiro não correr mais.
Eu também parei de tentar me equilibrar em uma perna só sobre o parapeito da varanda do meu apartamento, no quarto andar - pode ser que eu caia e, então, encurtar o já curto inevitável seria idiota; agora, sim, seria.
Resolvi que atravessar a rua a pé agora só faz sentido se eu olhar pros dois lados antes, se não estiver ouvindo barulho de veículos por perto e sempre na perpendicular à calçada - são os cuidados que vou ter daqui pra frente que vão definir a minha qualidade de vida.
Ainda penso em saltar de paraquedas, mas, mais do que nunca, já vou saltar segurando a cordinha e não resta qualquer dúvidas de que vou puxá-la no momento indicado pelo instrutor e não segundos depois, como eu planejva antes.
As torções nos joelhos já não têm a mesma importância de antes, mas o cérebro se concentra mais em evitá-las: pisar mais com as pontas dos pés e menos com os calcanhares, tirar o peso do corpo na hora do giro, correr como quem flutua.
Bebo mais água, descanso mais, respiro mais profundamente, ando mais devagar, corro menos, falo mais pausadamente, trabalho menos em grupo...
E detesto coisas impressas em papeis pequenos. Porque não era só um pedaço de papel. Mais parecia um bilhete de viagem...
"Eu já disse adeus antes mesmo de alguém me chamar
Não sirvo pra quem dá conselho
Quebrei o espelho, torci o joelho, não vou mais jogar"
("Meu coração", de Arnaldo Antunes)
Não sirvo pra quem dá conselho
Quebrei o espelho, torci o joelho, não vou mais jogar"
("Meu coração", de Arnaldo Antunes)
segunda-feira, 3 de outubro de 2011
Que as músicas falem por mim #19
A borboleta bate as asas e o vento vira violência.
Não sei a soma exata, só a ordem de grandeza.
Não sermos literais às vezes faz nossa beleza,
às vezes faz nossa cabeça um par de olhos, um pôr de sol.
Às vezes faz a diferença...
Tentei ficar na minha, tentei ficar contigo.
O que há de mais moderno ainda é um sonho muito antigo.
Tentei ser teu futuro,tentei ser teu amigo.
O que há de mais seguro também corre perigo.
Não sei a quantas anda, é da nossa natureza.
Não saber o que fazer às vezes faz nossa certeza,
às vezes faz nossa cabeça um par de olhos, um pôr de sol.
Às vezes faz a diferença..."
("Sei não", Engenheiros do Hawaii)
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