segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

...teu primeiro namorado!

Acho que eu queria ter sido o teu primeiro namorado. Nem sei se por inveja ou por exclusividade. O fato é que naquela idade, ainda nem sabia de ti. Ainda não tinha passado por uma rua qualquer, e sido sugado pela tua passagem, na calçada do outro lado, completamente alheia a mim. Mas queria que isso tivesse acontecido alguns anos antes. E que eu tivesse me aproximado, que você tivesse deixado e que tivesse acontecido.

Queria ter sido o primeiro só para que eu fosse o desbravador de certos sorrisos teus, que só um namorado recebeu. De certos olhares que a vida prometeu. Queria ter sido o primeiro para receber a pureza mais simples ainda, mais completa ainda. E não é que eu ache que teria sido melhor do que pode vir a ser um dia. É porque assim, de forma simples, eu queria.

Queria ter dado o primeiro beijo e ter sido a primeira saudade. Queria segurar a mão e caminhar pela cidade. Queria opinar sobre as roupas e aprender a conviver. Queria cometer erros, discutir, me arrepender. Escolher a armação dos óculos e dividir os amigos. Namorar até deixar nosso amor bem antigo. Mas, ter sido o primeiro, por conveniência, já não digo.

E talvez a sensação de ser primeiro nem seja a que eu mais queria. Melhor seria ter sido o único, coisa que nem vai ser, nem seria. E, de verdade, o que explica essa minha sensação de querer ter sido o primeiro seja o fato de que, se eu tivesse chegado antes, ao menos, talvez, eu seria. Mas, ter passado naquela rua, naquela hora, naquele dia, já tão tarde, tão errado, tenha sido o meu atraso, mesmo em nossa simpatia. E agora, nem primeiro, nem, quem sabe(?), um dia...

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Que as músicas falem por mim #20

"Depois de sonhar tantos anos,
de fazer tantos planos
de um futuro pra nós.
Depois de tantos desenganos,
nós nos abandonamos como tantos casais.
Quero que você seja feliz.
Hei de ser feliz também.

Depois de varar madrugada,
esperando por nada,
de arrastar-me no chão
em vão. Tu viraste-me costas,
não me deu as respostas
que eu preciso escutar.
Quero que você seja melhor.
Hei de ser melhor também.

Nós dois já tivemos momentos,
mas passou nosso tempo,
não podemos negar. Foi bom!
Nós fizemos histórias
pra ficar na memória
e nos acompanhar.
Quero que você viva sem mim.
Eu vou conseguir também.

Depois de aceitarmos os fatos,
vou trocar seus retratos
pelos de um outro alguém
Meu bem, vamos ter liberdade
para amar à vontade
sem trair mais ninguém.
Quero que você seja feliz.
Hei de ser feliz também
depois..."

("Depois", de Marisa Monte)

sábado, 29 de outubro de 2011

O dia em que eu (não) casei...

Eu teria acordado muito ansioso neste 29 de outubro de 2011. Teria, se tivesse dormido. Mas, como eu dormiria, sendo este sábado um dos dias mais importantes da minha vida? Não seria possível. A tônica para o início deste dia seria tê-lo grudado à sexta-feira, que já se foi, sem sequer piscar os olhos. Não exatamente por falta de sono, mas por ansiedade.

Mas, a ansiedade não seria minha única companhia no início e no decorrer deste sábado. Eu estaria nervoso. E eu veria as primeiras horas do dia surgirem - ainda em meio à escuridão da madrugada que tranforma sextas em sábados - e me perguntaria com que velocidade elas passariam. E quanto tempo eu ainda teria que esperar até as 10 horas da noite. Sim, porque, se este 29 de outubro seria um dos dias mais importantes entre todos, 10 horas da noite seria o momento. Assim, simples. Só com um artigo definido se antepondo ao substantivo. Porque tudo haveria de ser simples.

Então, é isso. Eu haveria de ver o dia 29 de outubro de 2011 chegar, ansioso e nervoso para que o tempo me levasse logo até as 10 da noite. Mas, até lá, eu ainda precisaria ordenar muitas coisas e conferir tantas outras. Antes que o sol nascesse, por exemplo, eu ainda terminaria de escrever o poema - desta vez, sim, um poema - que seria o texto mais profundo já escrito por mim. Não teria mais que uma lauda, escrita de próprio punho, caneta preta, assinada ao final com o eterno e irrepreensível "ED...".

Provavelmente, eu o terminaria já com os primeiros raios de sol entrando pela janela e me apontando rumos a seguir ainda antes do momento. E, com certeza, até que eu dobrasse cirurgicamente o papel e o guardasse no melhor envelope que havia encontrado semanas antes, eu já teria rememorado várias coisas. Uma delas, 12 anos antes, também num 29 de outubro, quando assobiei "não se admire se um dia um beija-flor invadir a porta da sua casa, lhe der um beijo e partir...".

Eu já teria lembrado, também, dos fatos que sucederam esses assobios. Um beijo, depois mais outro. E uma sequência de história que chegaria a este 29 de outubro de 2011. Às 10 horas da noite. Eu lembraria da lapiseira emprestada e esquecida intencionalmente para gerar novos encontros. Das cartinhas escritas e entregues com todo o zelo do mundo. Lembraria de um "Eu também", que, sozinho, era o mais romântico "Eu te amo!" que podia haver neste mundo. Lembraria de um show de Kid Abelha em um 4 de dezembro antigo. De uma calça azul que eu adorava no corpo dela. De como eu passei a gostar do calo que ela tinha no dedo, de como ela sempre me pedia para cortar o cabelo, de como eu queria que ela não mexesse no dela.

Enfim. Uma sucessão de lembranças me viria à mente. Aquela faixa que estendi para ela na escola. As camisas que ela personalizou para mim. A camisa que eu personalizei com o nome dela e o número 29 às costas. E, de forma especial, a mania dela de me chamar monossilabicamente de Du, esperar minha resposta, me chamar de novo para mais uma resposta, repetir isso mais uma vez, para, no final, dizer: te amo! E ouvir o meu "eu também!".

Mas, aí já seria praticamente meio dia. E eu precisaria conversar com o maestro. Ele já teria, provavelmente, me garantindo mais de uma centena de vezes que a música "O vento" estava ensaiadíssima e que os músicos já sabiam de cor o momento de aparecer entre os convidados, um a um, para surpreendê-la. Ah, e o principal: ela não desconfiava de nada.

Eu também teria que passar por minha última e definitiva aula de dança. Sim, porque eu quereria surpreendê-la também com uma dança, já que sempre a privei de dançar comigo por pura incompatibilidade entre mim, minhas pernas e qualquer ritmo musical. Acho que ela iria gostar muito de se sentir conduzida por mim numa dança, por isso eu teria preparado isso para ela.

E aí, depois de (re)conferido esses detalhes, eu haveria de ir me vestir, bem a rigor, bem polidamente, exatamente da maneira como eu não gostava muito, mas como ela preferia. E, de certa forma, ao longo dos anos até aqui, foi ela que me ensinou a "detestar" menos esse jeito de me vestir. Talvez por ela eu tivesse reconstruído minha forma de pensar a esse respeito.

Bom, mas aí, como seria de se esperar, o dia passaria voando, mesmo, e eu me perceberia já às portas das 10 horas da noite. Antes de sair de casa, ainda tomaria as bênçãos dos meus pais, compartilharia uns abraços com meus irmãos e sairia com meu melhor amigo, que ainda me zoaria algumas besteiras aos ouvidos, como quem diz, em outras palavras: "Parabéns, cara! Você conseguiu!".

Às 9 e meia da noite, lá estaria eu, em frente à igreja, já completamente tomada de rostos conhecidos, sorrisos fartos, amizades longas. Eu entraria pela entrada principal como quem não acredita que, enfim, havia chegado a hora. Iria caminhando, sozinho, entre as pessoas, e fingiria que ainda dava uma última conferida nos detalhes, mas, na verdade, não conseguiria mais assimilar muita coisa. Meu coração só conseguiria pulsar regressivamente, como quem me prepara e se prepara para a hora, que seria dali a pouco.

Até que, pontualmente às 10 horas, ela haveria de aparecer na entrada. A pontualidade teria sido algo combinado entre a gente para que a eternidade que eu sei que existiria até ela chegar não parecesse tão mais longa do que, de fato, seria. O pai dela estaria meio engasgado, meio emocionado, meio vermelho demais pela sensação de estar perdendo a filha. Mas, ele confessaria, quando me estendesse o braço dela, que confiava em mim. Quem diria?

Ela estaria linda! Deslumbrante seria a palavra certa. Tão linda como se estivesse usando uma camiseta branca e a calça azul de que eu tanto gostava. Apesar do vestido longo e branco, do véu, dos enfeites no cabelo - adereços aos quais não sou muito afeito -, ela estaria linda! Deslumbrante de verdade.

E eu ousaria desvirtuar meus olhos dos dela só para constatar que meus pais, os dela, os amigos que construímos juntos e os que compartilhamos, todo mundo, ali, seria testemunha ocular do que estaria acontecendo. E nós haveríamos de ouvir algumas palavras religiosas antes de proferirmos um ao outro o "sim" mais sonoro e definitivo que nossos ouvidos poderiam captar. Aí, eu a olharia profundamente, mais uma vez, como se fosse a última, e tocaria seus lábios tão detida e intensamente, que seria quase como se voltássemos ao mesmo local de 12 anos antes, na escola, quando assobiei uma canção qualquer, quase perdida no tempo, e nossos lábios se uniram pela primeira vez.

Em seguida, viriam "O vento" a violinos e sax, as homenagens, os gritos, a algazarra, a festa, a alegria, a sensação, quase, de dever cumprido.

Haveria de ter sido neste 29 de outubro de 2011, porque queríamos um sábado e, quando planejamos, a partir de então, este seria o primeiro 29 de outubro num sábado. E, coincidentemente, eu estaria com 29 anos.

Haveria de ter sido o momento áureo das nossas histórias. Haveria de ter feito nossos corações quase saírem pela boca, assim, impulsivamente, exatamente como eu fiz ao pular do piso superior da escola quando um amigo me disse que ela estava no térreo, aparentemente chorando. Haveria de ter sido... mas não foi! Porque a vida prega peças. Porque a vida é quem dita as regras.

sábado, 22 de outubro de 2011

Penso, logo... #5

Ah, coração, por que você não aproveita uma taquicardia qualquer dessas e esquece?! Esquece, porque, de repente, esquecer pode ser sua única oportunidade de permanecer pulsando.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Hoje eu Inventei a Vida

Não era só um pedaço de papel, nem apenas o resultado de um exame. Era o primeiro dos últimos dias da minha vida. Ao redor dos trinta, bem na previsão, no diagnóstico. E eu precisei tomar algumas decisões.

Optei por não ser mais kamikasi e desisti do "sonho" de me transformar em homem-bomba; tudo já havia sido detonado, explodido e, paradoxalmente, começava agora a ser implodido.

Eu decidi não xingar o juiz só por ter recebido uma entrada dura ou o motoqueiro do lado só por ele ter-me trancado contra o meio-feio numa avenida movimentada. Aliás, por falar em moto, não piloto mais a minha Yáskara com os olhos fechados e os braços abertos - esse é um risco que prefiro não correr mais.

Eu também parei de tentar me equilibrar em uma perna só sobre o parapeito da varanda do meu apartamento, no quarto andar - pode ser que eu caia e, então, encurtar o já curto inevitável seria idiota; agora, sim, seria.

Resolvi que atravessar a rua a pé agora só faz sentido se eu olhar pros dois lados antes, se não estiver ouvindo barulho de veículos por perto e sempre na perpendicular à calçada - são os cuidados que vou ter daqui pra frente que vão definir a minha qualidade de vida.

Ainda penso em saltar de paraquedas, mas, mais do que nunca, já vou saltar segurando a cordinha e não resta qualquer dúvidas de que vou puxá-la no momento indicado pelo instrutor e não segundos depois, como eu planejva antes.

As torções nos joelhos já não têm a mesma importância de antes, mas o cérebro se concentra mais em evitá-las: pisar mais com as pontas dos pés e menos com os calcanhares, tirar o peso do corpo na hora do giro, correr como quem flutua.

Bebo mais água, descanso mais, respiro mais profundamente, ando mais devagar, corro menos, falo mais pausadamente, trabalho menos em grupo...

E detesto coisas impressas em papeis pequenos. Porque não era só um pedaço de papel. Mais parecia um bilhete de viagem...


"Eu já disse adeus antes mesmo de alguém me chamar
Não sirvo pra quem dá conselho
Quebrei o espelho, torci o joelho, não vou mais jogar
"
("Meu coração", de Arnaldo Antunes)

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Que as músicas falem por mim #19

"Não Eu sei qual foi a causa e quais serão as consequências...
A borboleta bate as asas e o vento vira violência.
Não sei a soma exata, só a ordem de grandeza.
Não sermos literais às vezes faz nossa beleza,
às vezes faz nossa cabeça um par de olhos, um pôr de sol.
Às vezes faz a diferença...

Tentei ficar na minha, tentei ficar contigo.
O que há de mais moderno ainda é um sonho muito antigo.
Tentei ser teu futuro,tentei ser teu amigo.
O que há de mais seguro também corre perigo.

Não sei a quantas anda, é da nossa natureza.
Não saber o que fazer às vezes faz nossa certeza,
às vezes faz nossa cabeça um par de olhos, um pôr de sol.
Às vezes faz a diferença..."

("Sei não", Engenheiros do Hawaii)

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Penso, logo... #4

Será que é a véspera dos trinta que justifica esta ansiedade em viver tudo de uma vez? Será que é o fato de ela não estar mais comigo que justifica a ausência desta tal ansiedade?

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Não tem ninguém(?!)...

Aperte play.


Ninguém para comentar que os alienígenas sempre apalpam minha bunda, por cima da toalha, quando eu acabo de tomar banho.

Ninguém para encontrar meus cartões, que eu sempre perco pela bagunça do quarto.

Ninguém para me espremer contra a parede ou contra o sofá, enquanto eu durmo, e me deixar com, no máximo, 30% do colchão.

Ninguém para me encarar, de vez em quando, através do espelho, enquanto escovo os dentes, me fazendo sentir saudades de um tempo em que isso acontecia todos os dias.

Ninguém para se vestir de mim - calção, camisa e, às vezes, até cueca - pouco antes de ir dormir.

Ninguém para provar e aprovar os novos sucos que eu faço.

Ninguém para correr de uns três metros de distância de mim e saltar sobre meu corpo para me escalar como se eu fosse o Everest mais divertido e sem riscos que existe.

Ninguém para eu assustar - até hoje não sei se acredito se de verdade ou não - com minha cara de "o exorcista", que consiste apenas em mostrar, o máximo que eu puder, a parte branca dos meus olhos.

Ninguém para mostrar um corte no dedo ou na mão, esperar eu perguntar por que não colocar um bandeide e responder que é porque não precisa, já que o corte é muito pequeno.

Ninguém para se vangloriar por algo que fez, esperar eu dizer que não conseguiu sozinha, dizer que foi sim, esperar eu dizer que André ajudou e terminar dizendo que não, porque "ele nem tava lá no quarto".

Ninguém para me chamar monossilabicamente; menos que isso, consonantalmente.

Ninguém para me esperar a alguns pontos de ônibus de distância, depois do trabalho, só para irmos no mesmo ônibus para casa, pra faculdade ou para onde quer que fosse...


sábado, 27 de agosto de 2011

Penso, logo... #3

Ora, doutor, eu não tenho nada. Todas as vezes em que ela foi embora, eu senti esses espasmos e ânsias de vômito. Aliás, o problema é exatamente este: sem ela aqui, eu não tenho nada.